Thaís Garayp: Da Engenharia à Arte — a atriz que ressignificou a maturidade nos palcos e telas
- pennaxavier
- 23 de jun. de 2025
- 3 min de leitura
Por Ronaldo Fish

Com mais de duas décadas de carreira artística, Thaís Garayp trocou cálculos e projetos de engenharia pela emoção dos palcos, sets de filmagem e estúdios de dublagem. Aos 65 anos, ela segue ativa, inspirando novas gerações com sensibilidade, talento e autenticidade.
De Belo Horizonte para o Brasil
Thaís Garayp nasceu em 26 de março de 1957, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Descendente de libaneses, viveu uma juventude marcada pelo estudo e pela disciplina. Formou-se engenheira civil pela UFMG e trabalhou como funcionária pública por anos antes de descobrir — ou redescobrir — seu verdadeiro dom: a arte.
“Antes eu construía prédios, hoje construo personagens”, costuma dizer.
Primeiros passos na arte: dança, coral e palco
A paixão pela arte surgiu cedo. Thaís estudou balé clássico na Fundação Clóvis Salgado entre 1972 e 1975. Anos depois, ingressou no respeitado Coral Ars Nova da UFMG, onde permaneceu por mais de uma década (1978–1993), apresentando-se em festivais nacionais e internacionais.
Também integrou o grupo vocal “Nós & Voz”, antes de migrar definitivamente para o teatro musical — um de seus grandes amores.
O teatro como alicerce artístico
Sua carreira teatral começou nos anos 1990, com destaque para os musicais Mulheres de Holanda (baseado em Chico Buarque), Pianíssimo, Mahagony e Na Era do Rádio. Thaís se destacou por sua voz marcante, presença de palco e naturalidade cênica.
Outros títulos notáveis:
• O Homem que Sabia Português
• Os Sete Pecados Capitais
• A Bolsa Amarela (infantil)
• O Malandro
• Teatro de Arena (produção musical que uniu política e MPB)
Bastidores da televisão: da ponta ao reconhecimento nacional
Thaís estreou na TV em Celebridade (2003) com uma pequena participação. No ano seguinte, viveu a parteira de Preta (Taís Araújo) em uma cena improvisada e inesquecível de Da Cor do Pecado.
Mas foi em Como Uma Onda (2005) que ela se firmou no elenco fixo da TV Globo, interpretando Abigail, uma mulher forte e espirituosa. Em seguida, vieram personagens marcantes como:
• Zoraide, em Paraíso Tropical (2007) — papel que ela define como “um presente”. A personagem continua em evidência nas reprises do canal Viva.
• Bezinha, em Bom Sucesso (2019) — a governanta cheia de sabedoria, contracenando com Antonio Fagundes.
• Ana, em Caminho das Índias (2009)
• Rosa, em Sete Vidas (2015) — descrita por ela como “uma feminista que não sabia que era feminista”.
Seu trabalho é reconhecido pela naturalidade em dar vida a mulheres reais: mães, avós, empregadas, amigas — sempre com humanidade e nuance.
Cinema e curtas: sensibilidade e versatilidade
Thaís também brilhou no cinema, em produções independentes e comerciais:
• O Circo das Qualidades Humanas (2000)
• Mulheres do Brasil (2006)
• Trinta (2012)
• Filhos de Bach (2015)
• O Macaco (adaptação de Nelson Rodrigues)
• A Cartomante
• Vó Dita no filme Chico Bento e a Goiabeira Maravilhosa, da MSP Filmes. (2025)
A musicalidade como fio condutor
Com formação vocal sólida, Thaís utiliza a música como extensão de sua expressividade cênica. Já declarou querer criar um espetáculo que una canto e atuação, mesclando teatro musical com histórias de vida.
A maturidade como representação
Thaís é referência entre as atrizes maduras que ganharam espaço pela autenticidade, não pelo estereótipo. Em entrevistas, reflete:
“A TV precisa de 90% de rostos bonitos, mas também precisa dos 10% de carisma e verdade. É aí que entro.”
“Não tenho medo de envelhecer em cena. A arte, quando é sincera, não envelhece.”
Vida pessoal, fé e resiliência
Durante a pandemia, retornou a Belo Horizonte, onde cuida do corpo com hidroginástica e mantém o equilíbrio emocional com leitura e espiritualidade. Católica, acredita que sua trajetória é também missão:
“Me manter ativa é uma forma de agradecer. Meu grande sonho é morrer atuando.”
Transição de carreira: um salto de fé
Largar a estabilidade de uma carreira na engenharia não foi simples. Mas Thaís afirma que nunca duvidou do chamado:
“Chega uma hora em que o coração bate mais forte do que o contracheque.”
Essa coragem inspira profissionais de todas as áreas a recomeçarem — independentemente da idade.
Legado
Thaís Garayp representa o arquétipo da mulher real: forte, sensível, humana. Sua carreira é exemplo de que há espaço para o talento em qualquer etapa da vida. Em tempos de culto à juventude, ela lembra que o envelhecer na arte pode ser, sim, revolucionário.
Próximos passos
• Cinema: Vó Dita em Chico Bento e a Goiabeira Maravilhosa (2025)
• Teatro: desenvolvimento de um solo musical
• TV: aberta a novos convites para novelas e séries
Encerramento
Thaís Garayp não apenas trocou de profissão — ela reconstruiu sua identidade através da arte. Com talento, coragem e brilho próprio, ela se tornou referência de reinvenção e longevidade artística no Brasil.
Que sua trajetória siga inspirando outros a começarem — ou recomeçarem — a viver com mais verdade.




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